
Bruno Porto em debate no 2º Festival de Cinema Brasileiro na China/Cauê Ferraz
O designer brasileiro Bruno Porto viveu na China entre 2006 e 2012. No país, lecionou, produziu, promoveu eventos. Ele faz uma leitura aprofundada do caráter do design chinês que, diz, apesar da tradição milenar, ainda não pode ser definido em um modelo. E, como sustenta, além disso há a questão de um intercâmbio global de tendências.
Porto fala sobre a estrutura de trabalho na China, das surpresas que aparecem em diferentes países e comenta ainda a execução do livro Asian Graphics Now!, uma publicação da Taschen da qual participou, que abrange a produção em países como Japão, Vietnã, Tailândia e, claro, China.
Confira abaixo a entrevista com o designer.
Janaína Silveira - Como surgiu e como foi a experiência do livro?
Bruno Porto - O livro foi uma colaboração entre o editor-in-chief Julius Wiedemann – responsável por um dos megasellers da Taschen, o livro Japanese Graphics NOW –, o editor de arte Daniel Siciliano Bretas – que trabalha com Wiedemann em suas séries de publicações de design, ilustração, publicidade e mídia digital –, o designer e pesquisador Sadao Maekawa e eu, que selecionamos os profissionais, agências e estúdios de design participantes. Em 2009 convidei Julius para ser um dos palestrantes da 9ª Bienal Brasileira de Design Gráfico trazida pela Associação dos Designers Gráficos – ADG Brasil – e o Itamaraty a Xangai e Pequim. Julius havia morado quase quatro anos no Japão, mas nunca tinha vindo à China, e ficou encantado com o que fui lhe contando sobre o design asiático que estava vendo na China continental, Hong Kong, Tailândia, Vietnã, etc, nas minhas viagens.
O sucesso do Japanese Grahics NOW – se não me engano são 150.000 livros vendidos no mundo todo – fez com que a Taschen pedisse a Julius uma continuação, mas a realidade é que nos cinco anos desde que o livro havia sido publicado, o design japonês não tinha passado assim por mudanças tão radicais que justificassem uma nova seleção. Daí propôs que colaborássemos no que viria a ser o Asian Graphics NOW. Ele convidou Sadao, que mora em Tóquio, para selecionar os participantes japoneses e eu fiquei responsável pelo restante da Ásia. Listamos cerca de 400 nomes que foram convidados a submeter trabalhos para o livro e que foram selecionados por Daniel e Julius. Para compormos um olhar mais abrangente, convidei os chineses Huang Li, editor da revista Package & Design, e Min Wang, diretor de design para a Olimpíada de Beijing, para também escreverem textos para o livro.

- O livro da Taschen/Reprodução
Janaína – O que você buscou mostrar sobre o design chinês?
Porto - A idéia era mostrar o que realmente vem sendo produzido na China pelos estúdios de design, agências de publicidade, freelancers. Na China, boa parte da produção de design visual vem das agências in-house, nas empresas que fabricam esses bens de consumo que invadem o mundo, seguido pelas agências de publicidade. Calcula-se que existam mais de 100.000 agências de publicidades de diversos portes em toda a China. Só depois vêm empresas de design propriamente ditas, embora estas sejam menos numerosas do que os pequenos estúdios com até 4 ou 5 integrantes.
Janaína – Há uma escola de design chinês? Ou a coisa é mais orgânica mesmo?
Porto - Apesar de diversos produtos já terem suas características próprias, e as artes visuais chinesas serem literalmente milenares, ainda é cedo para dizer se há um “estilo chinês” de design. Além do que, neste mundinho globalizado em que vivemos, este é um conceito um tanto ultrapassado: quando os produtos, ferramentas e suportes de comunicação são praticamente os mesmos, as diferenças e fronteiras acabam bem mais sutis. Há o design feito na China, assim como há o design feito no Brasil, que seguem tendências e características daqueles mercados, e que são, em muitos caso, efêmeras. Hoje o mercado chinês é poderoso, vibrante, vivo, se descobrindo. Nestes casos – e não é só na China – há sempre excessos e saturação, além das cópias, que nada mais são do que uma busca pela certeza do que já foi testado.
Janaína – Quem se adapta a quem? Os chineses aos padrões ocidentais ou vice-versa?
Porto - Um pouco dos dois. Empresas multinacionais que querem inserir seus produtos no país – e quem não quer um naco de 22% da população mundial? – tem que seguir alguns códigos locais de comunicação e cultura, não dá para tentar arrombar a festa. Ao mesmo tempo, há uma série de produtos inseridos no mercado chinês na última década – de celulares e produtos de beleza a fast food e coffeeshops – com os quais os chineses não tem muita intimidade, nem como consumidor nem como comunicador. A solução aí é seguir o que já é feito fora.
Janaína - Você não andou apenas pela China. Coletou exemplos do design na Tailândia, no Vietnã, etc. Há algum país que te chamou mais a atenção?
Porto - A Ásia toda é uma delícia para quem gosta de tipografia como eu! A variedade de caracteres e alfabetos é de perder o fôlego, quando se pula da Índia para Coreia, do Vietnam para o Japão, mesmo da China continental para Hong Kong e Taiwan, onde o alfabeto se manteve tradicional, sem a simplificação que o governo Mao instituiu, entre outros motivos, para facilitar a alfabetização dos camponeses. Além disso, o livro reflete os segmentos mais desenvolvidos de design e comunicação que cada país possui. Na Índia é o editorial, em Cingapura, branding; no Japão, as embalagens. Fiz um mochilão de quinze dias pela Ásia com o designer Fred Gelli – autor da marca dos Jogos Olímpicos Rio 2016 e especialista em design sustentável – e no Japão passamos quase tanto tempo em lojinhas vendo embalagens quanto em templos e parques. Em Tóquio fizemos um tour pelas lojas mais sofisticadas da cidade com o Sadao Maekawa, co-autor do Asian Graphics NOW!, no qual não compramos nada e saímos felizes como crianças em um loja de doces.
Janaína - Fala um pouco da tua experiência como professor na China.
Porto - Eu já lecionava no Rio de Janeiro havia dez anos quando recebi o convite do Raffles Design Institute para ir a Xangai. A Raffles é a maior corporação de educação em design da região Ásia-Pacífico, com 35 campi em 14 países e um corpo docente de estrangeiros, que ensinam uma visão verdadeiramente internacional de design. No departamemto de Comunicação Visual, éramos 30 professores de 20 países de cinco continentes. Essa convivência para mim – bem como para os outros designers brasileiros que lecionaram lá em diversos momentos, como Itamar Medeiros, Billy Bacon, Raquel Nolasco e Sarah Stuz – foi extremamente enriquecedora. Mesmo com toda minha experiência em sala de aula, enfrentava desafios diários para traduzir conceitos como criatividade e originalidade para os estudantes, habituados a um ensino “de cima para baixo”, sem questionamentos.
Janaína – Você também sempre foi o que a gente costuma chamar de agitador cultural. O nome pode parecer meio lugar comum, mas quem teve o prazer de conviver com você por lá, sabe que era assim mesmo. Conta um pouco das peripécias com design em solo chinês.
Porto – No Brasil, sempre estive envolvido na organização e curadoria de mostras e seminários das artes gráficas. Na China acabou não sendo muito diferente, apesar de muito mais complexo pelas dificuldades de comunicação (e não me refiro ao idioma) e burocracice chinesa. Billy, Itamar e eu organizamos a mostra de cartazes Descubra o Cinema Brasileiro, dentro do Shanghai International Film Festival 2007; Sarah, o produtor Braulio Flores e eu trouxemos as exposições DINGBATS BRASIL e 9ª Bienal Brasileira de Design Gráfico para os dois maiores eventos de design do país em 2009, a Shanghai International Creative Industry Week e o Beijing Icograda World Congress, onde foram vistas por mais de 200.000 pessoas de 50 países; em 2011 trouxemos também o festival de ilustração IllustraBrazil, organizado pela Sociedade dos Ilustradores Brasileiros – SIB, que contou com palestras, workshops, visitas a agências de design e publicidade e produtoras de animação; colaborei ainda em diversos eventos culturais, como o festival internacional de dança Dans Storm, produzido por Braulio, mostras de filmes brasileiros em Pequim, Xangai e Hanoi. Para mim é um desdobramento natural da minha atuação como designer: sempre busquei formas de mostrar o meu trabalho e conectar-me às pessoas.
Janaína - Hoje o teu trabalho é afetado pelo design chinês? Você trouxe na bagagem alguma referência?
Porto - Sem dúvida, e não apenas em nuances estéticas ou formais, apesar de ter desenvolvido uma intensa produção de posters nesta temporada chinesa. Há um pragmatismo no modo de se fazer design na China que acredito que possa ser transposto para nossa prática comercial e ser extremamente benéfico para o mercado. Uma das características da China é buscar sempre o melhor aproveitamento – de tudo: tempo, espaço, material etc, já que há aquele mundareu de gente – e muitas destas estratégias se encaixariam perfeitamente no contexto brasileiro. Trabalhar e lecionar design na China também contribuiu bastante para que eu aprofundasse questões relativas à sustentabilidade. Diante dos problemas e restrições que uma sociedade com aquela complexidade enfrenta, fica bem mais claro que a função do designer – seja gráfico, industrial, interativo etc – deve obrigatoriamente passar por estas preocupações. Por incrível que pareça, há uma China que se preocupa muito com a preservação de seus recursos, embora aconteçam desperdícios criminosos. Estes muitas vezes são causados por pequeninas decisões, mas que ganham proporção colossais diante do tamanho da população e dos centros urbanos. Por outro lado, muitas das soluções também passam por pequeninas mudanças de hábitos e estratégias para que estas aconteçam. Assumi recentemente no Brasil a coordenação executiva da Bienal de Tipografia Latino-Americana e estou procurando montar um evento que seja mais racional com os recursos utilizados. É uma exposição que rodará quase 40 cidades de 13 países da América Latina para depois ganhar o mundo, e estou focado na busca por soluções de reutilização do material utilizado na mostra, na racionalização no transporte dos palestrantes, no investimento nos mercados locais onde a mostra será montada, no melhor aproveitamento de formatos, publicações digitais etc. Entender os problemas chineses – mesmo os ainda não solucionados – é de grande valor para o designer brasileiro.
Confira a lista de sugestões de livros sobre a China elaborada pelo Radar