A China está perto de dar um destino aos protagonistas do maior escândalo político em 20 anos, que envolve o ex-prefeito de Chongqing e ex-integrante do Politburo – o sistema nervoso central do governo do Partido Comunista – Bo Xilai e sua mulher, Gu Kailai. O roteiro de assassinato e suspeitas de corrupção e adultério está sendo tratado como um caso meramente criminal, motivado por desacordos financeiros e zelo materno. E focado numa figura principal, Gu.

Foto do local do julgamento, em Hefei, da agência Reuters
O primeiro dia de julgamento ocorreu nesta quinta-feira, a portas fechadas. A mídia estrangeira não pode participar. Apenas dois diplomatas britânicos acompanharam a sessão, porque Gu é acusada da morte de Neil Heywood, nascido na Inglaterra. Ela e o antigo empregado da família Zhang Xiaojun, teriam sido os autores do assassinato.
Num breve artigo sobre o primeiro dia do julgamento, a agência oficial chinesa, a Xinhua, explica que “Na noite de 13 de novembro de 2011, Bogu Kailai encontrou Heywood no seu quarto de hotel para um drinque. Depois de Heywood ficar bêbado, vomitar e pedir água, ela colocou o veneno que havia preparado, e que Zhang teria levado ao quarto, na boca da vítima, o que levou à morte de Heywood”. Nada sutil o amor de mãe. Ainda não há data, no entanto, para o anúncio do veredito.
O destino de Bo deverá ser decidido pouco depois, e a aposta é que ele acabe indiciado por obstrução da Justiça, a fim de evitar acusações de corrupção, que poderiam levar à conexão com outros líderes do Partido. O discurso oficial repete nos principais jornais chineses: as leis, sob a ótica do estado de direito, são aplicáveis a qualquer cidadão. Gu deverá servir como um exemplo. Filha de general e mulher de um político de peso, poderá enfrentar condenações que vão de 10 anos de prisão à perpétua ou mesmo pena de morte.
Serviria, então, como contraponto a casos de desmandos envolvendo a Justiça chinesa – cujo sistema não é independente – e permite violações como a prisão domiciliar ilegal do dissidente cego Chen Guangcheng ao longo de 19 meses, sem que houvesse qualquer condenação para tal. Ele só conseguiu livrar-se da pena ao fugir de casa pulando um muro no meio da madrugada e refugiando-se na Embaixada dos Estados Unidos em Pequim – depois de rodar centenas de quilômetros escondido em bagageiros de carros de amigos. Um de seus sobrinhos foi preso pouco depois do episódio, e a família não tem qualquer informação sobre seu paradeiro. A Justiça chinesa poderá ser rígida no caso de Gu, como o governo quer provar. Mas ainda assim, há quem possa entender que ela só é justa com os mais privilegiados.
O caso da famíia Bo veio à tona num ano em que o Pequim gostaria de qualquer coisa, menos de uma turbulência que ferisse a honra dos seus integrantes, especialmente daqueles de alto escalão, e que pusesse em dúvida a escolha dos principais nomes. Para um regime de partido único que vigora desde 1949 não é nada prudente admitir condutas erráticas dos seus figurões.
E a China está às vésperas da mudança no comando do país, depois de uma década. Antes de dezembro, deverá ocorrer o Congresso Nacional do PCC, que apontará o próximo presidente, cargo hoje de Hu Jintao, o futuro premiê, atualmente Wen Jiabao, e os novos integrantes do Conselho Permanente do Politburo, a célula que realmente conta na hora de tomar decisões e onde Bo almejava chegar. Almejava, pois o sonho virou pesadelo em fevereiro.
- O Partido terá uma opinião formal sobre os casos de Bo Xilai e Gu Kailai antes da realização do Congresso Nacional. E então eles serão levados a julgamento – confirma o professor especialista em política pela Universidade do Povo de Pequim, Wang Zhenxu. Gu conhecerá mais rápido o seu destino.
- O que poderá ocorrer é um atraso na realização do Congresso, mas ele não deve ser adiado para além de dezembro – aposta o jornalista australiano John Garnaut, que acompanha o caso.
Originalmente, o encontro partidário que definirá a transição de poder era esperado para outubro, mas até agora, nenhuma data foi anunciada. A expectativa é de que os novos dirigentes tomem posse em março de 2013, provavelmente Xi Jinping como presidente e Li Keqiang como primeiro-ministro.
O indiciamento de Gu
O indiciamento formal de Gu por assassinato intencional abriu o início do processo que pode culminar no expurgo de Bo do Partido Comunista e talvez em uma condenção por obstrução à Justiça, segundo analistas. Isso porque acusações por corrupção poderiam envolver outros politicos do alto escalão, além de duras penas previstas na lei chinesa, entre as quais a pena de morte. E, obviamente, daria um viés político ao caso, o que o governo parece querer evitar.
O governo chinês só se manifesta para dizer que quer despolitizar a contenda.
“Os resultados da investigação mostram que Bogu Kailai, uma das rés, e seu filho de sobrenome Bo tinham conflitos com o cidadão britânico Neil Heywood relativos a interesses econômicos. Preocupada com a ameaça que Neil Heywood poderia representar à segurança pessoal de seu filho, Bogu Kailai, junto a Zhang Xiaojun, a outra ré, envenenou faltamente Neil Heywood”, informa a nota sobre o indiciamento de Gu e de Zhang na última quinta-feira. O texto ainda indica que a corte responsável pelo caso é a de Hefei, cidade da província de Anhui, a mais de mil quilômetros do local do crime. Explicação para a escolha do local? Nenhuma.
O comunicado provocou especulações. O nome adotado pela imprensa oficial chinesa para se referir à protagonista da história, que aparece como Bogu Kailai, em vez do tradicional Gu Kailai (há a adição do sobrenome do marido em frente ao da própria mulher), reforçaria a ligação entre os dois. A omissão do primeiro nome do filho do casal – Guagua – mostraria que ele não será envolvido no caso. Depois, o fato de a acusação acreditar que Gu teria agido para proteger o filho de ameaças poderia significar uma pena mais branda que a de morte.
- O Partido provavelmente já tomou uma decisão, e está preparado para seguir adiante. Casos como este já aconteceram no passado – diz o professor da Universidade do Povo.
No última sexta-feira, editorial do jornal Global Times – voz do Partido Comunista da China para temas de interesse internacional – advogava que o jugalmento seria transparente e que quanto mais detalhes divulgados, mais aumentaria a confiança dos chineses no processo.
O partido, independente dos detalhes que divulgar, já decidiu que diretriz o público deverá seguir, como mostra o periódico oficial: “Este é um caso criminal, e a sociedade deve enxergá-lo assim. A audiência deve adotar essa perspectiva”, afirma o texto.
A expectativa é de que o julgamento de Gu e de Zhang Xiaojun aconteça a partir de 7 de agosto.
O caso
A raiz do escândalo está na visita do então chefe de Polícia de Chongqing, Wang Lijun, ao consulado norte-americano em Chengdu – capital da província vizinha a Chongqing, Sichuan – para não só supostamente buscar asilo, mas denunciar a trama de assassinato envolvendo Gu e o marido, então seu chefe. Acabou deixando o local 24 horas depois sob escolta enviada por Beijing e até hoje está incomunicável.
Era o estopim para o maior escândalo político da China em 20 anos – o anterior data do massacre da Praça da Paz Celestial, quando o então primeiro-ministro Zhang Ziyang caiu em desgraça ao negar apoio à declaração do estado de sítio em Pequim e à resolução de retirar à força os estudantes da praça, o que acabou lhe custando 16 anos em prisão domiciliar, desde 1989 até a sua morte.
Em fevereiro, o que o então chefe da Polícia de Chongqing fez foi apontar os holofotes para o lado obscuro da vida privada do homem que construía para si a imagem de arauto do maoísmo e líder populista. Tido como um dos principais candidatos à nova liderança chinesa, o modelo de Bo provocou especulações sobre uma volta dos políticos conservadores ao poder.
A reviravolta na trajetória de Bo ainda tinha contornos mais leves quando o primeiro-ministro, Wen Jiabao, deixou claro que a atual administração buscava novos ares. Em coletiva realizada em 14 de março, Wen advertiu que eram necessárias reformas políticas para manter o crescimento econômico e evitar uma tragédia como a Revolução Cultural. O recado tinha destinatário certeiro, e não significava apenas uma indicação rumo a tempos mais abertos. Menos de 20 horas depois, Bo era removido do cargo de prefeito de Chongqing. Pouco depois, perdeu o posto no Politburo. E começaram a pipocar na impresa – notadamente a estrangeira – os meandros do dramalhão no sudoeste chinês.
Até então, a visita de Wang Lijun ao consulado norte-americano era envolta em mistério. Pouco a pouco o nome de Heywood começou a aparecer – e a embaixada britânica passou a pedir uma investigação detalhada sobre a morte. Em novembro, o amigo da família de Bo havia sido encontrado morto em um quarto de hotel. O corpo foi cremado no dia seguinte e a causa apontada para a morte fora ingestão excessiva de álcool, embora, segundo amigos, o britânico não fosse afeito à bebida.
Heywood tinha contato com Bo e Gu desde os tempos em que o político estava à frente do município costeiro de Dalian, cidade onde liderou uma repaginação urbanística e ambiental. Teria garantido o ingresso do filho do casal comunista, Bo Guagua, numa das melhores escolas britânicas, a Harrow. E atuaria ainda na intermediação de negócios, além de supostamente auxiliar no envio ilegal de dinheiro da China para o exterior – uma destas transações teria provocado o desentedimento com Gu.
Ocorre que não satisfeitos com as descobertas de supostas falcatruas financeiras, os jornais ainda passaram a sugerir um romance entre Gu e Heywood. Bo Guagua também ganhou destaque e nas semanas seguintes foi figurinha fácil das manchetes por seu estilo de playboy classe A na Europa e nos Estados Unidos. Quem, afinal, bancaria um padrão de vida tão excêntrico? A sua mãe, segundo declarações de Guagua, que teria doado a ele suas reservas acumuladas enquanto atuava em advocacia e como escritora – após vencer uma causa em tribunais norte-americanos, Gu escreveu um livro sobre o tema que ficou popular na China. O discurso do jovem pouco convenceu, dando mais espaço para as suspeitas de que a família estava envolvida em corrupção.
TRAMA CHINESA
QUEM É QUEM
Bo Xilai, 62
Era dado como certo: ele seria um dos próximos líderes na quinta geração do poder político da Nova China – a República Popular fundada por Mao Zedong em 1949. O estilo era inconfundível. Pouco depois de assumir o poder em Chongqing, em 2007, Bo abriu mão de qualquer discrição e deu início ao culto à sua própria personalidade, calcado na cartilha maoísta. Proibiu comerciais na TV local, que só passava historietas com os feitos dos revolucionários – ele próprio é filho de um, Bo Yibo, ex-primeiro-ministro cujo papel foi preponderante na reconstrução da China pós-Revolução Cultural (1966-1976). Nas praças, a população era exortada a cantar canções dos tempos de Mao. O tom populista se deu pelo vigor imobiliário, em projetos voltados à classe baixa.
Bo conquistou apoio popular, mas despertou desconfiança entre os seus pares. Já havia angariado um bom número de inimigos. Ao assumir Chongqing, ele havia dado início a uma campanha para limpar a cidade da “máfia”. Centenas foram presos e mais de uma dezena, executados. Há quem diga que o desmantelamento do crime organizado local tenha servido apenas para que os mafiosos protegidos de Bo assumissem os negócios.
Ele caiu em março. Estaria preso em Pequim.
Gu Kailai, cerca de 52
Gu Kailai é personagem central no escândalo. É oficialmente acusada do assassinato de Neil Heywood, o britânico amigo da família encontrado morto em novembro do ano passado em um quarto de hotel em Chongqing. Ela teria um caso com o empresário, cujo principal papel era conectar homens de negócios do exterior aos chineses. Os laços com a família Bo viriam dos tempos em que eles moravam em Dalian.
Advogada e empresária – e até escritora -, Gu teria tramado o assassinato sem qualquer motivação passional, mas porque estaria descontente com a propina pedida por Heywood para uma transação de lavagem de dinheiro com o exterior.
É descrita como mentalmente instável – em função de episódios depressivos nos últimos anos. A tese é reforçada por um episódio ao menos inusitado. Gu teria entrado em uma reunião de altos oficiais da policia de Chongqing vestindo insígnias de general do Exército de Libertação Popular – ao qual ela não pertence – pedindo proteção a Wang Lijun, o antigo chefe da polícia e justamente o homem que a estaria investigando pelo assassinato. O caso teria ocorrido em novembro, pouco depois da morte de Heywood.
Conheceu Bo Xilai em 1984.
Bo Guagua, 24
O filho do casal Bo e Gu acabou sob os holofotes também, graças a uma vida fanfarrona nas escolas que frequentou. Festas com os colegas e aparições em carros de luxo provocaram dúvidas acerca da origem do dinheiro para sustentar tal padrão ostentador. Bo foi taxativo ao dizer que tuo era fruto das economias da mãe, uma adovgada e escritora de sucesso – embora Gu já tivesse largado ambas as atividades.
Não deve ser arrolado em nenhuma parte dos processos envolvendo os pais.
Neil Heywood, 41
Casado com uma mulher chinesa, Wang Lulu, o britânico vivia na China há mais de uma década. Conheceu a família de Bo Xilai na cidade costeira de Dalian, onde foi tutor do pequeno Guagua. Atuava na intermediação de negócios entre a China e o Ocidente. Seria ele quem teria garantido o ingresso de Guagua na conceituada Harrow. Dali, o estudante teve acesso às melhores universidades.
Foi encontrado morto em um quarto de hotel em novembro do ano passado. O motivo teria sido uma transação ilegal de dinheiro. Ele teria pedido uma propina maior do que a usual a Gu, a fim de realizar a transação.
Wang Lijun, 52
Considerado braço direito de Bo Xilai, foi transferido de Liaoning para Chongqing a pedido de Bo, onde assumiu como chefe de Polícia e liderou a campanha contra o crime organizado. No dia 2 de fevvereiro, perdeu o posto e foi nomeado vice-prefeito, o que o tiraria da cena central. Três dias depois, iria ao consulado norte-americano em Chengdu para denunciar os crimes envolvendo a morte de Heywood e de corrupção. Saiu no dia seguinte, com escolta vinda de Pequim, onde, acredita-se, esteja preso.
O CENÁRIO
Chongqing é um conglomerado que reúne 30 milhões de almas no que a China insiste chamar de cidade, mas pode ser entendida como um município cuja porção urbana reúne entre 6 milhões e 7 milhões de habitantes. O restante vive na região rural, embora de idílico pouco haja por ali. À beira do Rio Yangtze, Chongqing não apenas convive com um calor acachapante e à beira do insuportável no verão, mas é envolta constantemente em uma névoa - naturalmente há ocorrência de cerração (diz-se que a condição climática chegou a protegê-la da ocupação japonesa na década de 1930), mas hoje o nevoeiro é também obra das partículas de poluição suspensas no ar.
Desde a década de 1990, Chongqing é uma das quatro cidades chinesas com status provincial, a exemplo de Beijing, Shanghai e Tianjin – a única não costeira no grupo. Foi desmembrada da província de Sichuan, onde fica em Chengdu,. Como as demais, reza a cartilha de desenvolvimento a passos largos. Campo profícuo não só para o aumento da poluição, mas para o surgimento de outra praga: a corrupção. Eis aí outra das aparentes atividades a que Bo se dedicava por ali, desde que assumiu o comando, em 2007. Ele vinha do Ministério do Comércio, com passagem ainda como prefeito de Dalian, cidade portuária da província de Liaoning, onde ganhou fama como um urbanista e defensor de políticas ambientais.
No ano passado, quando o Produto Interno Bruto (PIB) chinês cresceu 9,2%, Chongqing reportou salto de mais de 14%.
TEMPORADAS ANTERIORES
O último julgamento a mobilizar a China nacionalmente foi o da quarta mulher de Mao Zedong, Jiang Qing, acusada pelo PCC de atividades contrarevolucionárias devido aos excessos da Revolução Cultural – quando liderou boa parte das campanhas culturais.
Ela integrou o grupo chamado de Gangue dos Quatro – que teve ainda a participação de Wang Hongwen, Zhang Chungqiao e Yao Wenyuan. Condenada, teve a sentença de morte suspensa, mas não a de prisão perpétua. Morreu em 1991, oficialmente por sucídio.
Jiang perdeu todo o poder com a morte do marido, em 1976. O julgamento ocorreria em 1981.